sexta-feira, 6 de abril de 2012

Os porquês e o pé do Igor

Tito está com 2 anos e 7 meses. É um menino meigo, esperto, inteligente e muito sapeca. Gosta de ler, de brincar (principalmente de carrinho, mas também de lego, quabra-cabeça, ferramentas etc), adora assistir Bob- o construtor e Escola pra cachorro na televisão, também adora o McQueen, o Mate e todos os personagens de Carros 1 e 2. Gosta também de Procurando Nemo, Mosntros SA, Palavra Cantada e mais um montão de filmes que fomos comprando mais porque mamãe adora animação do que por necessidade. Na escola ela fica bem, mas acho que ele gosta mesmo é de ficar em casa com papai e mamãe. Agora mesmo, falando de amizade (ele brincando disse que o bombeiro e o Mate são muitos amigos), perguntei quem são os amigos do Tito e ele respondeu "papai", e eu "quem mais?", e ele "mamãe", "mas, e na escola filho?" aí disse o nome de alguns(mas) colegas de mais tempo e ele "amigo é papai e mamãe, os colegas, não". Fala obrigado, por favor, de nada e outras expressões muito certinhas que fica até engraçado na boca de um menininho tão pequeno.

É muito curioso ver como as idéias e apreensões sobre sentimentos vão se formando na cabeça da dele, assim como a linguagem. Agora, toda hora é, "sabe, mamãe?", "sabe, papai?", "precisamos fazer isso ou aquilo", "posso fazer isso, mamãe?" ou "deixa eu ajudar". Mas o que mais me supreendeu foram os porquês que começaram nos últimos dias, ainda tímidos. Falei pro Gustavo que, sinceramente, estava ainda nos "o quês" e achando muito legal. Os "porquês" certamente são mais trabalhosos e exigem mais imaginação e paciência. E, parece que foi outro dia, ele estava chegando do lado de cá da barriga.

Na quarta, Tito trouxe da escola (roda de leitura) um livro chamado "Como é bonito o pé do Igor" (a autora se chama Sandra Rosa). Ele conta a história de um menino chamado Igor desde o nascimento de forma simples e poética com ilustrações lindas (eu adoro aquele tipo que parece de massinha!). Enfim, ele pediu pra eu ler antes de dormir, uma coisa levou a outra e daqui a pouco estávamos vendo os 4 álbuns de fotos que conseguimos fazer desde a gravidez. Tem uma foto especial, que fica escondida no álbum e não mostro pra ninguém do Tito saindo literalmente de dentro de mim. Foi bem impactante pra mim rever a foto. Me dei conta que nem me lembrava mais tão bem do parto. De tanto ver parto cesárea na televisão não me lembrava se o meu tinha tido ou não aquele paninho que separa a parte superior da mãe, daquela que está sendo operada. Enfim, foi muito legal ver que eu fui vendo tudo acontecer porque não tinha paninho nenhum e uma foto que mostrava exatamente as nossas caras (minha e do Gustavo) no momento em que ele ia saindo de mim (graças à nossa querida doula Fadynha que também fez às vezes de fotógrafa em momento tão fundamental). Enfim, foi muito legal ir revendo toda nossa história com ele e contando do meu jeito. Ele mamando, ele comendo, ele no colo de um monte de gente, ele indo pra casa de tudo quanto é gente da família a partir de uns 10/ 15 dias e, nós dois (eu e Tavo), lá cheios de coragem, felicidade e cansaço, mas muito seguros de nossos lugares de pai e mãe daquele Tito que era tão pequenininho e que, olhando com anos de distância, dá até medo de pegar.

Enfim, sei que muitos porquês virão, muitas birras também (ele agora também faz "malcriação" - odeio esse nome - e nos desafia para saber se iremos manter o que falamos), mas é lindo perceber que estamos construindo com ele essa história e que tratamos o Tito como participante principal também e não como mero coadjuvante que cumpre ordens. Continuo tendo um milhão de dúvidas e inseguranças, talvez ainda maiores do que quando ele nasceu ao despeito de nossa pretensa segurança, mas a angústia que elas geram às vezes nunca foi maior do que as alegrias que temos vivido todos os dias por tê-lo conosco. Fico feliz e assustada por ter um filho de 2 anos e 7 meses que já pergunta "por que?" (nunca fiz uma pesquisa para saber qual é a "idade certa" para começar com essa pergunta, mas sempre me pareceu que seria mais tarde), mas adoro contar histórias, brincar, perguntar também, então acho que será até divertido inventar com ele e Gustavo as respostas que, imagino, a cada dia terão que ser mais e mais convincentes, mas que também tem que deixar bem claro que é mais importante fazermos perguntas do que termos todas as respostas para tudo!

quinta-feira, 8 de março de 2012

8 de março, feminismo e maternidade

Hoje quero escrever. Hoje é um dos dias do ano em que me sinto mais feminista. Vejam bem, me sinto mulher e feminista todos os dias, mas hoje comungo com outras mulheres feministas a luta por um mundo menos desigual, menos violento e mais digno para todo mundo, em especial para mulheres. Mas por que escrever no blog do Tito sobre o assunto? Ontem à noite estava praticando minha militância online quando lembrei das fotos que tiramos quando fomos na Marcha das Vadias em 2011 aqui no RJ. Gustavo, Tito e outros amigos homens foram junto e achei essa foto que não tinha postado antes do Face.


Pra quem não consegue ler bem, entre Gustavo (com Tito) e meu amigo Maurício Santoro, está uma mulher segurando um cartaz com a seguinte frase "Ensine os homens a respeitar e não as mulheres a temer". Essa foto, com 3 homens em uma Marcha pelo direito (ainda não conquistado) de nós mulheres sermos livres com essa frase ao lado pra mim expressa uma conquista pessoal indescritível.

Muit@s amigas e amigos sabem que eu sempre achei que seria mãe de menina. Talvez pelo feminismo e pela admiração profunda que tenho por tantas mulheres (da família, da vida pública, da amizade) que influenciaram a mulher que construi pra mim e que sou hoje. Além disso, nunca gostei de "coisas de menino" tipo carrinho e futebol. Mas veio o Tito, o menino mais lindo e a pessoa mais maravilhosa que existe no mundo. Com ele, além de tantos aprendizados diários, Gustavo e eu estamos aprendendo (e ensinando) a criar um futuro homem que respeite as mulheres e o mundo em que vive. Um menino (futuro homem) que saiba que pode brincar de carrinho e de bola, mas que também tem à disposição para brincadeira bonecas, panelas e utensílios do lar (ele adora varrer e fazer comidinha). Um menino que veste azul e verde, mas também rosa e lilás. Que assiste na TV Carros, Bob o Construtor, mas também Angelina Bailarina. Um menino que nunca ouvirá de sua mãe e de seu pai que não pode chorar ou que isso ou aquilo é coisa de mulher e ou de homem.

Essa oportunidade, hoje entendo, é sem preço. Com ele e com meu marido venho aprendendo a criar novas relações de gênero junto com os homens, a praticar meu feminismo no cotidiano tendo como platéia e protagonista uma criança que crescerá com um pai que lava, passa, dá banho, troca fralda, cozinha, dá comida e trabalha fora, assim como sua mãe. Um pai que nunca questionou o fato de ter que assumir junto com a mãe as tarefas domésticas cotidianas (e não dando uma ajuda aqui ou ali) ou seu papel no cuidado diário compartilhado com seu filho. Um pai que nunca me disse pra parar de trabalhar fora ou abrir mão de meus sonhos individuais nem brincando. Duas pessoas que tomaram pra si a responsabilidade (e também as delícias) de ser pai e mãe em uma sociedade injusta, mas que, pouco a pouco, nos abre possibilidades para se dizer que DEVE HAVER MUITOS JEITOS DE SER HOMEM E DE SER MULHER! E AS PESSOAS NÃO DEVEM SOFRER NENHUM TIPO DE VIOLÊNCIA OU CONSTRANGIMENTO POR SUAS ESCOLHAS OU POR SER QUEM SÃO.

Apesar de minha emoção ao pensar nessas questões e também na minha felicidade por me sentir parte de um movimento que busca no cotidiano realizar suas conquistas, essa semana presenciei duas situações de violência de gênero que nos mostram o quanto ainda temos que lutar para que as mudanças sejam concretas e cotidianas para todas e todos. Primeiro, em um ônibus, um "senhor distinto" dava descaradamente em cima de uma mulher, de forma desrespeitosa e ostensiva, deixando-a constrangida, mas também imobilizada. E, ontem, aqui no Centro da Cidade Maravilhosa, um(a) travesti de longos cabelos loiros, peitos fartos, saia curta e decote passava na rua da Assembléia ao som de comentários desrespeitosos, como se a simples presença (e coragem) de estar ali, num ambiente "sério" na hora das pessoas voltarem de seus trabalhos para suas casas, desse a elas o direito de mostrar pública e desrespeitosamente o incômodo que sua presença causava.

A luta feminista é das mulheres, mas, na minha opinião, tem que, cada vez mais, ser uma luta de todas e todos. Eu quero homens feministas, quero uma uma LGBT feminista, quero pessoas que reconheçam a opressão e seu lugar nessa relação de poder e que lutem juntas para criar um mundo melhor, menos violento e mais fraterno.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

férias (vistas pelo celular da mamãe)






volta às aulas (ao trabalho, à rotina, a sentir saudade...)

Quanto tempo! Acho que atualmente fico tanto tempo sem escrever nada que já não devo ter mais leitor(a) nenhum(a) (e com toda razão, diga-se de passagem). Mas, enfim, acho que, muito naturalmente, a minha vida como mãe foi se readaptando às minhas muitas outras vidas passadas (ou seria o contrário) e essa dinâmica deixa tempo nenhum para outras coisas. Resumindo: faço muitas coisas, sou feliz fazendo muitas coisas e o tempo que sobra quero ficar mais tempo com o Tito, com o Tavo, em casa, com eles, ou batendo perna sozinha, conversando com as amigas, lendo e quase nunca escrevendo aqui. O que se há de fazer? (Pode ter a ver, ainda, com o fato de ter retomado a análise há quase um ano...).

Enfim, nesse tempo aconteceu tanta coisa que nem sei por onde começar: mudamos de casa, Tito teve uma fase pós-mudança em que não queria entrar ou ficar na escola (e essas semanas foram bem sofridas para nós), meu trabalho entrou em crise (e eu junto), comecei a pensar seriamente (de novo!) em fazer Doutorado, apresentei trabalhos, trabalhei muito e tirei (tiramos!) férias!!!!

As férias foram maravilhosas! Achei que fosse ficar exausta tendo que entreter uma criança muito dinâmica de 2 anos e meio todos os dias o dia todo, mas graças às nossas famílias, correu tudo bem. Claro que houve semanas bem cansativas (imagino que até mais para o Gustavo porque eu voltei a trabalhar uma semana mais cedo que ele), mas tive a sorte de passar a semana anterior a volta ao trabalho na casa de praia de uma de minhas queridas tias, o que serviu para renovar as baterias e fazer muito pouco ou quase nada....

Tito, nesse mês de férias, andou pra cima e pra baixo! Foi várias vezes ao CCBB (exposição India, maravilhosa!), foi ver Palavra Cantada no cinema com a mamãe umas 3 ou 4 vezes, foi para a casa de tod@s avós e tias, brincou muito com o primo João, viajou para serra pra ver a bisa, tios e primas da mamãe, curtiu tias, avó, praia e piscina na casa de praia, muito chamego no papai e na mamãe, muitas saídas de bicicleta na "garupa" do papai, assistiu a muitas e muitas horas de Carros, Procurando Nemo, Monstros S.A., Deu a louca na Chapeuzinho Vermelho, A casa do Mickey, Pocoyó, Pingu etc etc etc, brincou muito de carrinho, trenzinho, trator, comidinha, limpar casa, montar quebra-cabeça, lego e similares. Enfim, a criança se esbaldou.

Achei, portanto, que a volta às aulas seria complicada com ele se agarrando em mim, chorando etc. Sendo assim, já no sábado, comecei a mostrar pra ele o portifólio (maravilhoso, por sinal) que a escola dele monta (e nos manda no final do ano) com os principais trabalhinhos feitos por ele e com fotos de várias atividades em que ele se envolveu. Fui lendo com ele como um livro, relembrando as atividades, os nomes das professoras e d@s colegas, valorizando como é legal estar na escola. Isso pode ter ajudado (ou, de repente, já seria assim de todo o jeito pq ele é uma criança maravilhosa), o fato é que hoje, quando chegamos na porta da escola, ele carregando sua mochilinha no Peixonauta (que havia ajudado a arrumar ontem), Tito parou, tirou o carrinho/ trator que escolheu levar hoje e correu para mostrá-lo para uma de suas professoras enquanto corria e se jogava no chão do jardim com muita felicidade. Me vendo demorar ali mais do que o de costume, ainda conversando com as professoras na entrada, ele veio até mim, me abraçou, deu um beijo e voltou para brincar. Eu, é claro, sai de lá chorando de alegria e de saudade....